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quinta-feira, 16 de abril de 2020

Recursos naturais e turismo


Para iniciar a reflexão, segue um podcast com a fábula "Um conto do hoje", publicada na tese de doutorado "Consciência política e ambiente: a desproteção de parques municipais em Americana (SP) e São Francisco de Paula (RS)". 



Um conto do hoje aqui.




Breve crononologia da relação Ser humano e Natureza
Maria Augusta e Marcel Bursztyn (2012) | Cristina Bonfiglioli (2016) | Fábio Ortolano (2019)

Pré-história: período da pedra lascada, um avanço tecnológico. Surgimento da agricultura, sedentarismo e sociedades hidráulicas, fixadas em vales. Desmatamento com fogo. 
Antiguidade : Utilização massiva da madeira e recursos florestais. 
Período Mercantilista: marca o fim de uma era de temor do mundo natural, intensificação do comércio e navegações no séc. XVI. Conhecimento e controle da natureza pelo homem. 
Revoluções industriais: o uso intensificado de energia e a urbanização (cidades industriais). 
1950-1960: movimentos de contracultura; ecologia política contra o uso de pesticidas; denúncia da imprensa e ciência dos efeitos danosos do uso da energia nuclear; 
1970 – Grandes desastres ambientais denunciados pela grande mídia e início dos acordos internacionais e algumas nações passam a internalizar o ambientalismo; 
1980 – Uso leviano da noção de ecossistema e o prefixo “eco”.

Grandes eventos
1972: Conferência de Estocolmo, Suécia (ONU). Foi criado o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA); 
1985:  Convenção de Viena para a Proteção da Camada de Ozônio, Áustria. Deu base ao  Protocolo de Montreal, Canadá, 1987; 
1992: Eco-92 - Agenda 21; 
1997:  Protocolo de Quioto, Japão -  Redução do efeito estufa, ratificada em 1999, sem assinatura dos EUA; 
2002: Rio+10, Johanesburgo, África do Sul. 
2012: Rio+20 – Agenda 2030 - ODS



Já pensou sobre como os recursos naturais são essenciais para o turismo, sobretudo para composição de sua oferta diferencial? Certamente, os destinos que os possuem, têm diferenciais importantes para implementação e desenvolvimento do receptivo local. Assim, um conjunto de elementos são necessários para composição do trade, profissionais da área, poder público, agências de turismo e comunidade. Além disso, vale identificar se a localidade apresenta, além de potencialidades, vocação e expertise para atuar com tais recursos, visto que estes devem ser preservados e salvaguardados.

Os recursos naturais são os elementos da natureza, os quais são utilizados pelos humanos por meio do extrativismo, cultivo, pesquisa, educação, contemplação, recreação e turismo. Tais recursos são essenciais desde a Pré-História até as atuais sociedades complexas. Para sua sobrevivência, desenvolvimento da civilização e conforto, os seres humanos têm recorrido a tais recursos, por meio de fontes renováveis, como a energia solar e do vento ou não renováveis, como o petróleo e o carvão.

Uma forma de utilizá-los positivamente, de forma responsável, é por meio do turismo, quando se considera os impactos, promove a educação ambiental e a capacidade de carga das localidades. 

Nesse sentido, é importante que todos os atores envolvidos estejam engajados em aprender e conhecer sobre a relação ser humano e ambiente, bem como sobre a natureza em sua totalidade, desconstruindo a polarização e antagonismo ser humano x natureza, como se não estivessem interligados. O homem é também da natureza. Como diria Antonio Carlos Diegues, em O mito moderno na natureza intocada, o modelo de compreensão conservacionista nos colocou como vilões, quando na verdade muitos de nós ajudamos na preservação. 

Diegues (1996) releva que o modelo de criação e áreas naturais protegidas a partir do século XIX, nos Estados Unidos, representou uma política conservacionista muito utilizada nos países em desenvolvimento, cuja ideologia preservacionista baseava-se na visão do homem como um destruidor. Esse modelo de “ilhas” isoladas entrou em choque nos países tropicais, onde comunidades tradicionais já vivam nesses espaços naturais, inclusive com a prática de um manejo de subsistência sustentável. O autor, inspirado nos conceitos de mitos bioantropomórficos e mitos modernos (neomitos)de Edgard Morin, os quais congregam uma série de representações, símbolos e imagens conscientes e inconscientes, aponta que o mito moderno (neomitos) da natureza intocada refere-se a um conjunto de representações conservacionistas de uma concepção biocêntrica das relações homem/natureza, o qual foi amplamente difundido na modernidade. Contudo, mitos bioantropomórficos também existem em várias localidades e culturas, em que o mundo natural vive em relação intrínseca com as populações e comunidades. Na concepção mítica de sociedades primitivas e tradicionais existe uma simbiose entre o homem e a natureza. (Ortolano, 2019)


A concepção de que existe uma simbiose entre ser humano e natureza é essencial no desenvolvimento de uma consciência ambiental, visto que gera pertencimento e identificação.  
Contudo, também é necessário reconhecer todas as contradições dessa relação. Os profissionais de turismo, ao fazerem a mediação da experiência dos visitantes nos ambientes naturais, devem tanto positivar a vivência e relevância dos recursos naturais quanto olhar criticamente para os impactos que os humanos geram na localidades, desde as questões de saneamento, infraestrutura e encaminhamento de resíduos, à coisas simples, como o pisoteamento em lugares de solos e vegetação frágeis. 
O guia de turismo tem um papel crucial no desenvolvimento de uma atividade responsável e, por isso, é relevante que conheça sobre os recursos naturais e esteja consciente de suas responsabilidades. 
Já pensou quais são os recursos naturais que compõem oferta diferencial do Turismo? Tal oferta é aquela que diferencia os destinos se comparando com outras localidades, o que lhe confere atratividade. 

Recursos naturais da oferta diferencial 

Montanhas (Picos, Serras, Montes, vulcões, etc.); 
Planaltos e planícies (chapadas, Pedras, vales, etc.); 
Costas ou litoral (praias, mangues, canais, dunas, etc.); 
Hidrografia (rios, lagos, etc.); 
Pântanos; 
Quedas d’água; 
Fontes Hidrotermais e Minerais; Grutas e cavernas; 
Unidades de conservação; 
Locais de observação de flora e fauna (APA). 

Já parou para pensar como quando um grupo de turistas fazem uma trilha, sempre buscam um ápice para o passeio? Seja um cume, um curso d'água, uma cachoeira, um mirante, um lugar místico, uma gruta, dentre outros? Por isso mesmo, precisamos elaborar roteiros de interpretação das paisagens, de modo que a experiência do caminho seja tão importante quanto o ponto de chegada. Para tanto, desvelar a natureza é nosso desafio. Bora lá? Além de florestas, parques e bosques, já ouviu falar em bioma e ecossistema? Certamente na escola. Essas informações são indispensáveis na prática e condução do ecoturismo.



Dentro de um bioma podemos observar diferentes ecossistemas, com variáveis e processos distintos, conforme a ilustração abaixo. 


O estado de São Paulo, por exemplo, apresenta dois biomas, a Mata Atlântica e o Cerrado, bem como seus ecossistemas associados. Veja o mapa abaixo. 










No Brasil, reconhecemos uma diversidade de áreas naturais, desde parques urbanos, matas ciliares e unidades de conservação da natureza. Em 2000, foi instituído o SNUC - Sistema Nacional de Unidades de Conservação. 


Além disso, vale pontuarmos algumas autarquias e órgãos responsáveis pelo licenciamento e fiscalização ambiental, bem como pela pesquisa e gestão de áreas preservadas e conservadas. 


Segundo a Fundação Florestal, o termo “ecoturismo” começou a ser utilizado na década de 1980,  considerando que o turista também é responsável pelo ambiente e sociedade que visita, em oposição ao modelo de turismo de massa. 

Século XV - interesse em atingir os grandes picos dos Alpes; 
Século XVIII - viagens de erudição dos europeus abastados; 
Século XIX - milhares de turistas já visitavam os Parques Nacionais como “Yellowstone” (EUA) 

(Caderno de Educação Ambiental e Ecoturismo. Secretaria do Meio Ambiente - Adaptado) 

05 Mandamentos do Ecoturismo 
  1. Da natureza nada se tira a não ser fotos. 
  2. Nada se deixa a não ser pegadas. 
  3. Nada se leva a não ser recordações. 
  4. Andar em silêncio e em grupos pequenos. 
  5. Respeitar uma distância dos animais, evitando gerar stress. 
Fonte: Portal Educação


Planejamento do Ecoturismo 
Caderno de Educação Ambiental e Ecoturismo. Secretaria de Meio Ambiente de SP (Adaptado)

  1. Inclusão dos aspectos da biodiversidade nos planos de uso de território; 
  2. Participação de redes de trabalho em áreas protegidas; 
  3. Práticas de reflorestamento, conservação do solo, reabilitação de áreas naturais; 
  4. Controle e/ou erradicação de espécies estranhas ao ambiente; 
  5. Pesquisa sobre flora e fauna; 
  6. Utilização de novas tecnologias e técnicas na gestão de áreas naturais; 
  7. Diversificação da oferta de ecoturismo, aliviando o impacto nas áreas frágeis; 
  8. Ensino de práticas ambientais e de conservação estendido às comunidades; 
  9. Incluir  aspectos e características da cultura local; 
  10. Desenvolver instalações ecoturísticas adequadas nas áreas naturais. 


Preparando o território para receber ecoturistas 
Caderno de Educação Ambiental e Ecoturismo. Secretaria de Meio Ambiente de SP (Adaptado)

  1. Avaliação dos impactos ambientais; 
  2. Técnicas de gestão de consumo de água e esgoto; 
  3. Instalações para os visitantes que reduzam os impactos físicos; 
  4. Utilização de trilhas e outros caminhos; 
  5. Utilização de formas renováveis de energia; 
  6. Coleta seletiva e reciclagem; 
  7. Estímulo à produção e compra de produtos orgânicos; 
  8. Construção de alojamentos sustentáveis. 


Ecoturismo e Educação Ambiental 
Caderno de Educação Ambiental e Ecoturismo. Secretaria de Meio Ambiente de SP (Adaptado) 

  1. Centros de informações e de visitantes com exposições e programas audiovisuais; 
  2. Placas interpretativas e normativas; 
  3. Passeios guiados e passeios de interesse especial; 
  4. Formação de guias de turismo e intérpretes; 
  5. Trilhas autoexplicativas; 
  6. Instalações para a observação de animais e paisagens; 
  7. Guias turísticos contendo as características locais, perspectivas sobre a gestão dos recursos naturais e listas de identificação de animais e plantas; 
  8. Educação ambiental: atividades de conservação envolvendo turistas, comunidade local e estudantes. 



Caminhada em trilha, arvorismo, montanhismo, rafting, observação de pássaros, contemplação dos sons e de paisagens, relevo e aspectos geográficos, dentre outras. No guiamento, é importante sensibilizar os grupos por meio de diversas ações e linguagens. Dinâmicas; Narrativas educativas; Experiência; Arte (música, poema, pintura etc.) 

E São Paulo, como você vê a cidade? Uma "selva de pedra"?


Vista a partir da Aclimação, região central de São Paulo. Fotografia: Fábio Ortolano, 2020.


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Antes de prosseguir, se você for estudante do curso técnico de guia de turismo, acesse e responda o formulário abaixo.



O guia de turismo em ambientes naturais urbanos. Clique aqui.

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Bem, sabia que o município de São Paulo possui mais de cem parques em seu território?

A Divisão de Gestão de Parques Urbanos - DGPU da Secretaria do Verde e Meio Ambiente do município de São Paulo é responsável pela gestão de 108 parques municipais. O Município de São Paulo possui: 

  1. Parques urbanos 
  2. Parques lineares 
  3. Parques Naturais (Unidades de Conservação)


Vamos aproveitar e valorizar os recursos naturais disponíveis na localidade? Reflita sobre os casos abaixo e responda no campo dos comentários, o que você faria

Caso 1.

Transcrição da imagem: Um grupo de empresários de Recife, hospedado no Gran Estanplaza Berrini, decide passar um final de semana na cidade de São Paulo. Todos os turistas estão no município há 05 dias e já conheceram museus, restaurantes e um grande espaço de eventos. Ligam para uma agência de turismo receptivo, demandando um passeio de ecoturismo na capital paulista. Eles têm entre 35- 40 anos. A agência,  entra em contato contigo,  contratando-a(o) e questionando sobre opções em onde levar os clientes. Se fosse a(o) guia de turismo, o que diria? 

Caso 2.


Transcrição da imagem: Um grupo de turistas, vindo do interior, visita a capital paulista para um espetáculo do Cirque Du Soleil e se hospeda na região central da cidade. No dia seguinte, como os turistas estão com a manhã e tarde livres, demandam uma sugestão de lazer em parques. O grupo é diverso em faixa-etária e uma das passageiras é idosa e usa cadeiras de rodas. Se fosse a(o) guia de turismo, o que faria?



Caso 3.
Transcrição da imagem: Uma família de colombianos acaba de desembarcar em Guarulhos e ficará hospedada no Tryp São Paulo Tatuapé. Escolheram conhecer a maior cidade de América Latina, por saber de seu potencial cultural e diversidade. Ficarão dez dias na capital. No percurso do transfer, a mãe diz que que gostariam de fazer um passeio junto à natureza em algum dia. Completa que o filho pequeno gosta de brinquedos e a filha, bem como sua namorada, de trilha. Se fosse a(o) guia de turismo, o que  você sugeriria?


Se interessou no tema? Quer aprender mais sobre isso? 

#FICADICA


Bursztyn, Maria Augusta; Bursztyn, Marcel. (2012). Fundamentos de Política e Gestão Ambiental: caminhos para a sustentabilidade. Rio de Janeiro: Garamond.
Bonfiglioli, Cristina Pontes. (2016). O pensamento ecológico contemporâneo: a ciência dos ecossistemas. Em: Tassara, Eda T. de O. e Ribeiro, Sandra M. P. (Orgs.). Política Ambiental: contribuições interdisciplinares para um projeto de futuro. São Paulo, EDUC: FAPESP.

Souza, T. V. S. B.; Thapa, B.; Rodrigues, C. G. O.; Imori, D.; (2017). Contribuições do Turismo em Unidades de Conservação para a Economia Brasileira - Efeitos dos Gastos dos Visitantes em 2015. ICMBio. Brasília. Clique aqui.  

Ortolano, F. e Silva Netto, J. P. (2016a) Possibilidades e Desafios: Turismo no Parque Natural Municipal da Gruta, Americana, SP, Brasil. Revista Rosa dos Ventos – Turismo e Hospitalidade, 8(III). Clique aqui.  

Ortolano, F. e Silva Netto, J. P. (2016b) Paradoxos nos usos do Parque Natural Municipal da Gruta em Americana (SP, Brasil). Simpósio de Gestão Ambiental. Esalq/USP. Piracicaba. Clique aqui.  

Ortolano, F. (2019). Consciência política e ambiente: a desproteção de parques municipais em Americana (SP) e São Francisco de Paula (RS). Tese de doutorado. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Clique aqui.

Secretaria do Verde e Meio Ambiente do Município de São Paulo
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Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo
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Polo de Ecoturismo de São Paulo 
Clique aqui.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Ecoar: Qual a sua natureza?


Foi com essa questão norteadora que três alunos do Curso Técnico em Guia de Turismo, Alessandro Cruz, Julio Prado e Marina Antonucci, da turma AN17, organizaram um roteiro de ecoturismo, colocando em prática as competências da profissão.  Qual a sua natureza abre um conjunto de possibilidades reflexivas, atitudinais e éticas, ecoado por meio do Projeto Ecoar.

Ecoar é o projeto integrador construído pelo trio no processo de formação, tendo sido executado em 08 de setembro de 2018. Guiaram um grupo de 15 pessoas pelo Parque da Neblina, situado nos municípios de Mogi das Cruzes e Bertioga, uma reserva privada da Suzano Papel e Celulose, gerida pelo Instituto Ecofuturo.

No guiamento, trouxeram todas as marcas formativas do Senac, tal como a construção de um projeto real, o aprendizado significativo, a valorização do repertório individual e o trabalho colaborativo. Articularam as competências do curso, como o planejamento, estruturação e execução de roteiros turísticos, dando assistência aos turistas e mediando informações referentes ao atrativo e destino.

Do planejamento à execução, conceberam a ideia, a aprimoraram, buscaram parceiros, articularam fornecedores, notaram os desafios, venderam o produto turístico, criaram uma identidade visual e deram as orientações aos passageiros do passeio. Mínimos detalhes considerados em vários dias de trabalho, empenho e dedicação, unindo a expertise de cada um.  Foram muitos dias de trabalho, reuniões e planejamento”, diz Marina.

Guiaram o grupo atentos à hospitalidade, à educação ambiental e à construção de uma relação tempo & espaço em que foi permitido a busca e construção dos significados sobre essa natureza que nos toma e é parte intrínseca do nós, sujeitos do meio, natural e construído.

Encontramo-nos às 06h no Centro Cultural São Paulo e seguimos rumo à Mogi das Cruzes. Fizemos uma parada para café e, ao chegarmos no Parque, fomos acolhido num espaço muito aconchegante, com um delicioso suco  de Cambuci e fruto da Palmeira Jussara. Na sequência, o condutor do Parque nos apresentou a reserva e fomos para nosso passeio pelas trilhas. Entre narrativas e mediações, em dado momento no trajeto, fomos vendados e tivemos a experiência de confiarmos no outro, que nos conduzia.  Também tivemos um tempo livre às margens do Rio e, ao final, praticamos arvorismo (trilhas em corredores confeccionados sobre as árvores). O almoço estava impecável, feito com produtos orgânicos e muito carinho. Antes de retornarmos, visitamos o camping e compartilhamos nossas impressões. Na volta, paramos para um lanche na Casa dos Queijos e chegamos em São Paulo próximo às 20h.  

Um fotógrafo acompanhou o grupo e reuniu os registros da experiência que, além de ser uma ótima estratégia para as recordações, nos possibilitou olhar à volta com nossos próprios olhos e não mediados por uma lente.

Após a excursão, compartilharam algumas dicas de entretenimento e cultura na cidade de origem, São Paulo, dando sempre um gostinho de quero mais, pois a experiência de uma viagem transcende arrumar e desfazer as malas e mochilas.

Fábio Ortolano, professor na área de turismo do Senac Aclimação, participou da execução do projeto integrador Ecoar.  

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Turismo sensorial: a curadoria por meio de um projeto integrador


Aluna do curso técnico em Guia de Turismo do Senac Aclimação, Audmara Veronese, desenvolve um roteiro sensorial para pessoas cegas e de baixa visão em Espirito Santo do Pinhal.
Atenta a escassez de produtos turísticos voltados às pessoas cegas e de baixa visão, bem como à emergência do turismo de experiência, Audmara criou um roteiro sensorial em Espirito Santo do Pinhal. O piloto faz parte de seu Projeto Integrador, idealizado no desenvolvimento das competências associadas ao profissional guia de turismo.
Unindo a Secretaria de Turismo local, que a conheceu num evento da área; empresários locais, que acolheram sua ideia em visitas preliminares, a Fundação Dorina Nowill e instituições representativas do trade turístico, como a Federação das Empresas de Transportes de Passageiros por Fretamento do Estado de São Paulo (FRESP), que acreditaram no projeto, a aluna articulou uma rede de pessoas interessadas em investir no segmento. E a experiência piloto foi um sucesso, como descreverei a seguir.
Por conviver há mais de 15 anos com pessoas cegas, Audmara imprimiu sua marca desde a idealização à implementação do roteiro. Já no início, fez uma dinâmica em que todos os participantes se apresentaram, contaram um pouco de si e do interesse em fazer um passeio para conhecer a produção de café. Vieram as lembranças da infância, os semblantes de alegria compartilhados e os causos curiosos associados à vida cotidiana.
Atenta, a futura guia descreveu como estava vestida e os adereços que escolheu para aquele passeio. Retomou as conversas iniciais de planejamento com os participantes, as histórias de cada um.
O guiamento foi uma espécie de curadoria, pois a aluna tanto se preocupou com a concepção de um roteiro desenhado pelos sentidos, como fez com que os participantes expusessem seus talentos artísticos. Um dos participantes criou algumas trovas e as declamou durante o passeio.
O primeiro atrativo foi a Fazenda Retiro Santo Antônio, apresentada por seu proprietário, Jefferson Adorno, munido da hospitalidade mais genuína. Recebeu o grupo desde a chegada do ônibus e na casa administrativa preparou uma mesa com café, leite e bolos de fubá e milho. Acolheu todos contando sua trajetória e sobre a produção de um café incluso num projeto em harmonia com o meio ambiente, pela preservação das nascentes, mata nativa e fauna local. Ali, Aud entregou as lembranças, os chapéus de palha para caminhada e comentou que havia impresso o nome de todos os participantes e apoiadores. Assim, visitamos a Capela de Santo Antônio, construída em 1950, e fomos ao cafezal. Já com a lona branca no corredor entre os pés de café, tiramos as sementes dos cafeeiros. Jefferson ensinou todos como faz a colheita, tratamento, estoque etc. E como uma surpresa, deixou que o grupo plantasse uma árvore nativa para registrar o momento. Os participantes cegos e de baixa visão pegaram na terra, tocaram o vegetal, afofaram o solo e sorriram. Dalí seguimos até a sala do moinho, onde se produz o fubá. Pegamos o milho, trituráramos e sentimos o pó que descia entre as pedras. Fomos para o almoço.
Nossa refeição foi no centro da cidade, com alguns trechos em paralelepípedo, outros com asfalto. Na paisagem, edificações históricas e bem preservadas descritas pela Audmara. Almoçamos três opções de pratos, previamente apresentados pela aluna, todos acompanhados com saladas já picadas e temperadas.
À tarde, fomos na Cafeteria Loretto. Heitor Palermo Jr., gerente do estabelecimento, arrumou uma mesa para que todos sentissem os tipos de sementes em seus estágios de maturação.  Apreciamos o café, conversamos, conhecemos os diversos rótulos de cafés produzidos na região e a aluna fez os agradecimentos a todos os envolvidos. Entre emoção, carinho e diversos obrigados, compartilhamos todos a gratidão de participar do projeto.
Quanto aos cegos, o que mais me marcou foi a irreverência criativa e o humor cativante. Brincando com nossa guia, em trocadilhos com seu nome, agradeceram pela audiência e audição.
Para finalizar, não há como não dizer da trilha sonora, que foi escolhida pelo grupo e harmonizada no roteiro pela Audmara. Na ida, rumo à fazenda no interior paulista, a seleção continha as músicas de raiz, caipira e que mencionavam o café. Cantou-se “Flor do Cafezal”, interpretada por Inezita Barroso e ecoada várias vezes pelo grupo durante a excursão. No retorno, a opção foi MPB e chegando no desembarque, numa noite fria e já escura, escutou-se “O trem das onze”, interpretada por Adoniran Barbosa.

Fábio Ortolano, professor no curso técnico em guia de turismo do SENAC ACL e participante do roteiro piloto.